30.7.09
SEPARATISMO GAÚCHO
Há alguns dias atrás, depois de muito tempo, acessei a comunidade do Rio grande do Sul no site de relacionamentos Orkut, para verificar o que está acontecendo com meu estado, pois temporariamente estou longe de lá. Chamou-me a atenção um tópico em particular. Versava sobre uma enquete acerca da independência do estado gaúcho, situação que há muito tempo vem ganhando corpo no sul brasileiro, embora hoje esteja menos evidente.
Ao opinar no tópico, coloquei as razões pelas quais sou contra a independência gaúcha. Dentre elas, políticas e culturais, não me atendo às questões históricas sobre este pleito dos movimentos separatistas. Logicamante fui mal interpretado, o que não é nenhuma novidade em se tratando de orkut, onde grande maioria dos participantes e “debatedores” de questões políticas, e históricas são, em sua grande maioria, desinformados e alienados, por culpa de todo um processo revolucionário que há muito tomou nossos órgãos formadores de mentes e opiniões. Mas não é sobre isto que este post tratará. Voltemos ao caso da independência do RS.
Muitos alegam que os dizeres República Rio-grandense, na bandeira tricolor gaúcha, deve-se ao fato de que sempre houve um sentimento de separatismo desde a revolução farroupilha, o que de fato é falso. Bento Gonçalves jamais colocou tal aspiração como objetivo da revolta. Foi num impulso do general Netto que a república foi proclamada, sem consulta prévia ao comando da guerra. Mas também não é através da análise histórica que veremos o porquê desta ilusão pela qual a independência gaúcha tornaria o RS um país soberano, totalmente separado do Brasil. A abordagem mais esclarecedora é verificando o que torna efetivamente um país independente do outro, qual seja, a sua identidade cultural.
É bem verdade que existem países de culturas próximas que são independentes, mas sempre um é influenciado pelo outro. Os costumes, as crenças e a religião foram, desde o Egito Antigo, as amarras sobre as quais as civilizações se assentaram e diferenciaram-se pelos séculos. E é justamente nesta área que fica cada dia mais evidente a dependência do Rio Grande do Sul e a sua progressiva deteriorização cultural. A identidade gaúcha é hoje cada dia mais distorcida e descaracterizada, proporcionando uma invasão cultural que acaba por impor um novo leque de valores e costumes, sob a perigosa bandeira do “mundo sem fronteiras”. E esta cultura, este folclore é cada dia mais e mais modificado, descaracterizando o povo.
Como exemplo, podemos citar a relação simbiótica que temos entre os nossos jornais e os jornais do centro do país. Estamos fazendo tudo o que eles mandam, sem pestanejar. Se disserem que há um golpe em Honduras, todos falam amém. Se demitirem um colunista conservador no jornal O Globo, a ZH apressa-se a fazer o mesmo. Se blindam o presidente da república e o partido governante…amém, seja feita a vossa vontade. Como pode, então, um estado que sequer tem liberdade de opinião, que é manipulado desde a fonte na sua imprensa querer ser independente?
O mesmo ocorre com a nossa música. Se toca forró no Rio e em São Paulo, Porto Alegre tem que tocar também. Se um grupo musical do centro ou do nordeste do país dança rebolando a bunda, lá vão os “tchê musics” copiarem o mesmo para deleite do povo gaúcho. Como podemos nos achar diferentes se somos iguais? Se repetimos tudo o que passa na novela das oito como se fossem atitudes inerentes à nossa cultura? Será que o RS tem condição de ser efetivamente independente, se nas festas juninas nos vestimos de caipira, e dançamos quadrilhas como legítimos integrantes das regiões Sudeste e Centro-Oeste. E como se não bastasse, transformamos progressivamente nossos rodeios crioulos em festas de peão, sem citar a desvirtuação de nossos festivais nativistas, que hoje praticamente perderam seu sentido de existir como guardiões da verdadeira música gaúcha. Os bailes funks cariocas hoje invadem as noites de nossas grandes cidades, além de tantos outros ritmos que deixaram de ser exceção para se tornarem regras.
Evidentemente que a música por si só não causa qualquer transtorno à nossa identidade cultural. O problema é que além dela, importamos também os valores sobre os quais elas se assentam que são diametralmente opostos a tudo aquilo que costumávamos chamar de cultura gaúcha. Junto com o ritmo, importamos os hábitos. E de uma hora para outra nos vemos num local totalmente diverso daquele que crescemos. O respeito em todos os sentidos se perde, e a promiscuidade impera em todas as regiões. Desta maneira, perdemos progressivamente nossas raízes, pois o gaúcho sempre foi um povo conservador, mas que já está tão culturalmente modificado que o que somos não faz parte mais de nossas vidas.
O RS independente serviria somente para dar emprego a políticos em novos cargos da nova república. Culturalmente estamos ligados à pátria brasileira, de maneira praticamente irreversível. No passado, quando éramos flagrantemente diferentes do restante da população, não imperava o desejo separatista como se vê hoje, tínhamos mais orgulhos de sermos brasileiros. O pior de tudo é que a perda de identidade cultural dos gaúchos foi causada por gaúchos, mas isto é assunto que somente poderia ser bem explorado em um livro.
PS: Nada foi tratado na esfera política acerca do assunto, pois esta será tema de outro post.


criado por leniltonmorato
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